Café do Porto
Da sacada do hotel dava pra ver pouca coisa. Um pequeno pedaço de mundo encoberto por alguns arranha-céus desgastados pela maresia. Peguei o caderno, a caneta, os apetrechos para o mate e me fui. Entrei no elevador, velho e enferrujado, desses antigos que tem as portas de correr. Desci até o saguão e dei de cara com o tapete bordô, surrado pelo tempo. O papel de parede verde escuro com a mobília de madeira, deixava tudo com uma cara de século XIX. Só faltavam os paletós, chapéus e todo o resto que foi sendo esquecido com o passar dos anos. Ali, pareciam reviver, como numa cápsula do tempo, os itens já olvidados pelo presente. No balcão ainda se via o velho telefone preto de discar. O cabideiro continuava em pé num canto, abandonado, pois já não tinha muita serventia. A senhora que ficava na portaria era "muy amable". Escutava um tango no radinho velho, enquanto fazia palavras cruzadas.
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Ao botar o pé na rua senti o vento esmurrando-me o rosto. Era outubro e ainda fazia frio em Montevidéu. As bandeiras da pátria charrúa tremulavam na fachada dos prédios na Praça Independência. Bem no centro da Praça ficava o mausoléu onde repousavam os restos mortais do general Artigas, eternizado numa estátua de bronze. Segui meu curso, navegando sem destino, por entre as ruas, procurando um lugar onde pudesse atracar minhas ideias e sorver o amargo sossegado. Dava para ver o porto, imponente, assentado na borda do Rio da Prata. Uns chamam de rio, outros de mar, mas a verdade é que ele é um estuário criado pelo deságue das águas dos rios Paraná, Uruguai e do oceano. Se é rio ou mar, fica a critério dos poetas, músicos e contadores de histórias. A mim, o que me importa é navegar.
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Não muito longe dali, me deparei com o Café Brasileiro. Local famoso por ser frequentado por escritores, figuras ilustres da sociedade uruguaia, moradores locais e turistas em busca de fotos, café e empanadas. Não sou de tomar café. Sou do mate, mas decidi entrar mesmo assim. Escolhi a mesa mais retirada. Tirei o caderno surrado e as canetas do bolso. Dei uma boa olhada ao redor e contemplei os quadros e a mobília muito bem conservada. Pedi duas empanadas, uma de carne e outra de queijo, e me pus a desenhar. Finalmente havia encontrado um lugar para ancorar e sorver o amargo sossegadamente. Comi as deliciosas empanadas. Rabisquei umas ideias sem pé nem cabeça e, depois de um tempo, pedi a conta e fui embora.
Com as mãos engorduradas e sorvendo o mate, voltei caminhando pela Rambla. Navegando por águas revoltas, me guiando pela lua e pelas estrelas, como os velhos navegadores, procurando um porto para atracar.
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